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Da pobreza ao estrelato: os 125 anos de Charles Chaplin

Por Hallyson Alves

“NASCI A 16 DE ABRIL DE 1889 , às oito horas da noite, em East Lane, Walworth. Pouco depois mudamo-nos para West Square, em St. Georges Road, Lambeth. Segundo mamãe, era feliz o meu mundo de então. Vivíamos com relativo conforto em três cômodos bem mobiliados. Uma das minhas primeiras recordações é a de que toda noite, antes de mamãe ir para o teatro, Sydney e eu éramos carinhosamente postos numa cama confortável e entregues aos cuidados da empregada. Naquele mundo dos meus três anos e meio tudo era possível; (…)”

É desta forma que Charles Chaplin começa o relato da sua vida, em sua autobiografia, intitulada “Minha Vida”, de 1964. Como é de conhecimento público, a história de vida de Charles Chaplin foi marcada por altos e baixos (digamos que os dissabores foram mais aparentes). Sua infância foi um período muito difícil, sobretudo pelas experiências vivenciadas com a mãe, em constante processo de loucura por desnutrição, causada pela fome.

Entretanto, Chaplin conseguiu realizar um grande feito, não apenas para si, mas para a humanidade: converteu todas as dores que sofreu, desde tenra idade, em filmes de humor. Um humor bastante inteligente, por sinal, como ele gostava de destacar: “Sou um comediante, mas um comediante que pensa”. A essa capacidade de superação e transformação de uma realidade ruim em algo bom, dá-se o nome de resiliência. A vida resiliente de Chaplin possibilitou a construção da psicologia do personagem vagabundo, numa perspectiva positiva, enfatizando a possibilidade de um futuro melhor, embora a vida insista em apresentar momentos tristes. A canção “Smile”, composta pelo próprio Chaplin, para o filme “Tempos Modernos” (com letra de John Turner e Geoffrey Parsons), talvez seja a representação mais objetiva da visão de mundo do artista:

Sorria

Sorria, embora seu coração esteja doendo
Sorria, mesmo que ele esteja partido
Quando há nuvens no céu,
Você conseguirá…

Se você sorrir
Com seu medo e tristeza
Sorria e talvez amanhã
Você verá o sol brilhando, para você

Ilumine seu rosto com alegria
Esconda qualquer traço de tristeza
Embora uma lágrima possa estar tão próxima
Esse é o tempo que você tem que continuar tentando
Sorria, o que adianta chorar?
Você descobrirá que a vida ainda continua
Se você apenas sorria

Este é o momento que você tem que continuar tentando

Sorria, de que adianta chorar?
Você descobrirá que a vida ainda continua
Se você apenas sorrir

Ele falou para os mais diversos públicos, através de um personagem aparente simples, a partir de uma linguagem universal, que é a pantomina*. Os gestos do vagabundo falaram – e fala –  aos corações de crianças, jovens e adultos de todo o mundo.

Hoje, 16 de abril de 2014, há exatos 125 anos, o mundo comemora o nascimento do pequeno Charlie, o garoto pobre de Londres, que se tornou uma das maiores estrelas do cinema, sendo o primeiro artista milionário de Hollywood. Ele fez da arte o seu sustento e devolveu à vida o que ele tinha de melhor, um patrimônio imaterial inigualável: a sua obra.

O jovem Charlie

O jovem Charlie

(*) Técnica teatral em que os atores utilizam a mímica para representar.

REFERÊNCIAS

CHAPLIN, Charles. Minha Vida.  Rio de Janeiro. José Olympio, 2011. p. 31.

Site Letras.mus.br

Site Brasil Escola

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Charlot em Portugal: O encanto da exibição cinematográfica com acompanhamento musical ao vivo

Um cinema não tão mudo assim

Nos primórdios do cinema, sabemos que não havia diálogo falado, mas os filmes não eram silenciosos por completo. Grande parte deles tinha música ao vivo em suas apresentações, o que hoje em dia pouquíssimo se vê. A praticidade da exibição de filmes com a trilha sonora já embutida nos faz perder o momento mágico da sincronia do filme com a música ao vivo.

Com a experiência belíssima que tive no Teatro Nacional de São Carlos, na apresentação de O circo, de Chaplin com a trilha sonora interpretada ao vivo pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, resolvi pesquisar um pouco sobre isso. Gostaria então, de vos apresentar dois artistas desse belo ramo que passam pelo meu circuito Brasil-Portugal: Charlie Mancini e Tony Berchmans.

Charlie Mancini (xará de quem?) é português e faz acompanhamento musical de filmes mudos desde o ano de 2007. Tem se apresentado em associações culturais, universidades e auditórios, além de trabalhar com composições para cinema independente. Charlie conta que prefere o improviso na hora das apresentações, em que ele se utiliza do piano, iPad, sintetizador e guitarra elétrica processada.

Mancini ainda nos informa sobre seu interesse sobre o cinema mudo e Chaplin “Sempre tive uma paixão imensa por cinema e lembro-me de assistir ao filme biográfico «Chaplin» de 1992, dirigido por Richard Attenborough. O filme mudo condensa muita emoção humana e com a falta de diálogos os atores têm de fazer um esforço extra para passar os sentimentos, as situações e no caso de Chaplin o lado extremamente comovente, humano, por vezes crú (sem filtros) que está implícito nos roteiros.”. O artista – que já musicou ao vivo “Carlitos Aprendiz” e “O Imigrante” – revela que vem novidades por aí em um especial Charlot, para um festival no Alentejo, Portugal. Para conhecer mais sobre seu trabalho (recomendo!) acesse a fan page no Facebook

Vídeo da apresentação de “O Imigrante”:

Já Tony Berchmans é brasileiro, pesquisador, autor de um livro sobre música e cinema, compositor e produtor musical, palestrante e curador de eventos nesse ramo além de atuar no seu projeto Cinepiano (ufa!). Tal projeto nasceu em 2010, mas a experiência de Tony na área de produção fonográfica já passa dos 20 anos.

O artista brasileiro também nos fala um pouco sobre a sua atração pelo cinema mudo e chapliniano: “Me interesso por filmes mudos desde a adolescência, mas foi há cerca de 10 anos que minha pesquisa se intensificou. [...] Os filmes de Chaplin passaram a ser minha maior referência a partir do meu trabalho no Cinepiano, já que suas obras se apresentam como território perfeito para o acompanhamento musical.”.  Berchmans já se apresentou com o projeto Cinepiano no Brasil, Noruega e em breve estará na Romênia.  No âmbito Chaplin, Tony já musicou “Vida de Cachorro”, “Rua da Paz”, “O Pastor de Almas” e “O Garoto”. Mais informações sobre o trabalho desse mestre vocês encontram no site: http://cinepiano.com.br/home.html

Vídeo apresentação do Cinepiano com passagens de “Vida de Cachorro”

Pra quem tem vontade de sentir aquela sensação de cinema do século XX, vale a pena conhecer a arte desses dois. É algo maravilhoso, essa tentativa de viver o passado experimentando o começo da tão apreciada sétima arte!

Humanismo de Chaplin

Museu Charles Chaplin – The Modern Times Museum: grandiosidade e humanitarismo na mansão Chaplin

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Desde o final da década de 1990 um arrojado museu vem sendo desenvolvido na antiga mansão Chaplin, localizada na Riviera Suiça, mais especificamente no povoado de Corsier-sur-Vevey, onde Charles Chaplin passou seus últimos anos de vida. O projeto de Philippe Meylan conta com três mil metros quadrados e está localizado numa propriedade de 14 hectares, de acordo com o seu site oficial, e pretende ser inovador, combinando o mundo tradicional do cinema com a vanguarda, incluindo sets animados, hologramas, tecnologia 3D, efeitos especiais de imagem e som entre outros. Tudo isso será dedicado a resgatar e manter viva a trajetória de Chaplin e seu trabalho, assim como o seu humanitarismo. Também estão previstos vários projetores que exibirão filmes de Chaplin, imagens pessoais, documentários e demais informações sobre o artista. O museu pretende ainda abrigar festivais de cinema e música, apresentações de arte e cerimônias que contribuam para causas humanitárias, culturais e para o entretenimento, possuindo inclusive um teatro próprio e espaço para palestras e debates ao ar livre.

Antiga residência de Charles Chaplin, em Vevey - Suíça.

Antiga residência de Charles Chaplin, em Vevey – Suíça.

Na antiga casa de Chaplin estarão em exposição objetos pessoais, o piano de Chaplin, fotos e partes da casa preservadas, como a mesa e cadeiras da sala de jantar, acompanhadas de projeções multimídia da família Chaplin enquanto vivia na propriedade. Haverá ainda um passeio sobre a “Brea Streat”: o visitante poderá caminhar acima de uma espécie de mural que fica sob um piso transparente em que é reproduzida a Avenida de Hollywood em que Chaplin possuía os seus estúdios.
Todo este complexo está situado em meio a uma ampla área verde, com jardins e a paisagem dos Alpes Suíços.
O projeto promete mostrar réplicas dos sets de filmagem e cenários utilizados por Chaplin, como as máquinas das fábricas do filme Tempos Modernos (Moderm Times, EUA, 1936) e uma réplica do estúdio de O garoto (The Kid, EUA, 1921) entre outros. Os visitantes poderão atravessar alguns estúdios durante projeções em 3D de filmes e cenas de bastidores, “interagindo” com a exposição.

Uma área dentro do museu contará com The Charlot Boutique, que disponibilizará para venda milhares de objetos sobre Chaplin para rememorar a visita. Nesta mesma área encontra-se Gold Rush Café, um café inspirado nos filmes de Chaplin. Como diz o material de divulgação do museu (tradução livre), o local destina-se ao “Tempo para fazer uma pausa para uma xícara de café temático, inspirado pelas imagens inesquecíveis de um engraçado, mas romântico Charlie”. Já The London Bar propõe ao público do museu uma parada rápida para um lanche ou um beberico com a bela vista da Riviera Suiça.

Todavia, o museu financiado pela Fundação Nestlé – que já possui na cidade o maior Museu da Alimentação do mundo (Alimentarium) – já teve diversas datas de inauguração, como 2010, 2012 e 2011, todas adiadas. A próxima data prevista é a primavera de 2016, conforme divulgação do site oficial do museu (http://www.chaplinmuseum.com/en/). O site do museu disponibiliza vídeos, imagens e informações das mais diversas e é possível baixar um book em pdf e um vídeo com 10 minutos de duração com imagens em 3D de como será a versão final do museu.

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Imagem virtual do museu. Fonte: Chaplin Museum

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Imagem virtual do museu. Fonte: Chaplin Museum

Diante da magnitude do projeto, tais adiamentos são compreensíveis e apenas aguçam os fãs e estudiosos da obra de Charles Chaplin.

Seguem abaixo links de matérias sobre as diversas datas de inauguração do The Modern Times Museum, assim como do site oficial.

Museu Charlie Chaplin será inaugurado em 2010
Disponível em: http://www.webluxo.com.br/menu/museus/charlie-chaplin-museum.htm
Trinta anos depois da morte do ator mais conhecido do cinema mudo, um novo museu dedicado ao artista, na Suíça, será inaugurado em 2012
Disponível em: http://wp.clicrbs.com.br/viagem/2010/04/16/charles-chaplin-ganha-museu/?topo=77,1,1,,,77
Museu Charles Chaplin (previsão de inauguração para 2013)
Disponível em: http://vagabundoadoravel.blogspot.com.br/2012/05/museu-charles-chaplin.html
Museu Chaplin – Cinema clássico (previsão de inauguração para 2013)
Disponível em: http://cinemaclassico.com/index.php?option=com_content&view=article&id=6418:museu-chaplin&catid=54:conte-mais&Itemid=129
Previsão de inauguração para a primavera de 2016 no site oficial: http://www.chaplinmuseum.com/en/
Sobre o Alimentarium – Museu da Alimentação: http://culturasdomundo.com.br/onde-nestle-chaplin-museu-da-alimentacao-se-encontram/

Sobre o Autor

everton luis sanchesEverton Luis Sanches é Doutor em História, pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (2008). Atualmente é pesquisador da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, professor titular do Centro Universitário Claretiano de Batatais e editor da Revista de Educação. Tem experiência na área de História, com ênfase em História Contemporânea, atuando principalmente nos seguintes temas: história, comportamento, cinema, teatro e Charles Chaplin.